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01/02/2013 às 00:00

Em destaque neste mês é o ex-jogador de futebol profissional Ademario Pereira Bispo

Um nome desconhecido que chega a passar despercebido, mas não quando se revela seu apelido, Baiano
Em destaque neste mês é o ex-jogador de futebol profissional Ademario Pereira Bispo
Foto:Ex-jogador Ademario Pereira Bispo (Baiano)

Figura de fácil acesso e muito querido por todos em Joaçaba, Baiano chegou à cidade em 1977 para ficar apenas 04 meses. Porém o destino tinha outros planos para o quarto zagueiro do JEC (Joaçaba Esporte Clube). Natural de Mundo Novo, interior da Bahia, nasceu em 01 de julho de 1948 e tem mais 08 irmãos. Foi o sexto filho do casal Rafael Pereira Bispo e Antônia Moreira dos Santos.

Baiano tem muitas histórias para contar, mas em uma conversa de duas horas na Galeria 7 foi possível extrair um pouquinho de sua trajetória. Ele conta que a família mudou-se para Itapetinga em 1955, onde passou sua infância e adolescência. Foi lá que desenvolveu a paixão pelo futebol, que a princípio era apenas uma brincadeira de moleque nas peladas que jogava com os amigos, sendo que mais tarde chegou a participar do campeonato municipal de amadores pelo Botafogo. O esporte foi responsável por seu primeiro emprego aos 18 anos, quando foi contratado como ajudante de serviços gerais na fábrica de leite Glória que se instalou no município. Por ser uma multinacional a empresa queria se aproximar da comunidade e popularizar a marca. “Eles montaram um time escolhendo a dedo os melhores para disputar o municipal. Pagavam bem e tínhamos status”, lembra Baiano acrescentando que trabalhavam na fábrica durante a semana e jogavam futebol nos finais de semana. 

A habilidade de Baiano com a bola não demorou a ser percebida pelos olheiros e ele logo se transformou em um jogador profissional. “Joguei profissionalmente pela primeira vez no Espírito Santo pela Associação Ferroviária (hoje extinto), depois fui jogar no Democratas de Governador Valadares (MG), disputei o campeonato mineiro pelo Nacional de Muriaé (MG), e passei também pelo Grêmio de Maringá (PR)”. 

Quando residia no Rio de Janeiro Baiano recebeu convite e veio a Santa Catarina jogar no Guarani de São Miguel do Oeste, na sequencia foi contratado pelo Juventus de Rio do Sul e por fim, chegou à Joaçaba onde disputou três campeonatos pelo JEC. “O Joaçaba viveu uma grande fase naquela época chegando a ficar em 4º lugar no futebol da primeira divisão em 1978. Não ganhamos título durante esse tempo, mas a equipe era boa e levava muita gente ao estádio”, ressaltou. 

Apesar de ser bem recebido na cidade, Baiano não tinha intenção de criar raízes, pelo contrário, tinha um espírito aventureiro e pensava em alçar novos voos. “Eu tinha uns 28 anos quando cheguei aqui. Lembro que o técnico era o Joãozinho e os presidentes que passaram pelo Clube foram: Jairo Formighieri, Djalma Ouriques e Darci Mendes. Chegamos a jogar contra o Coritiba”, puxou na memória. 

Embora poucas pessoas conheçam os motivos que levaram Baiano a se afastar do futebol em 1979, ele recorda que em uma partida não se sentiu bem. “Não tava legal. A gente sabe quando não está bem”. Ao tomar conhecimento do mal estar do jogador o presidente do Clube o encaminhou ao Dr. Aluar de Oliveira Pinto que diagnosticou problemas cardíacos. “Ele me disse que eu tinha que parar de jogar futebol. Não foi fácil receber a notícia. Pense, você gosta do que faz, e alguém diz que você não pode fazer mais”, questionou. Mesmo resignado, resolveu acatar a decisão médica e se aposentou. Neste período já tinha conhecido a esposa Silvana Grisner e não tinha intenção de deixar Joaçaba pelas amizades que havia construído. “Minha relação com Joaçaba é muito boa e bonita. Não sei dizer se gosto mais da cidade ou das pessoas, tanto que tive várias oportunidades de ir embora. Em 78, por exemplo, o presidente do Figueirense chegou a vir aqui me convidar para disputar o campeonato brasileiro e recusei”, revelou. 

Baiano então se estabeleceu e constitui família em Joaçaba. Tomou algumas decisões como deixar de beber para levar uma vida saudável. Teve apenas um filho, Juliano Grisner, hoje com 31 anos e revela que tentou transformá-lo em jogador. “Quando percebi que não era a praia dele, fiz ele estudar. Aliás, foi essa motivação que me faltou”, disse ao recordar que possuía apenas o 5º ano do ensino fundamental quando chegou à Joaçaba e teve no amigo Djalma Silva (falecido) a motivação para retomar os estudos. Cursou o ensino médio no CNEC (Colégio Cenecista Joaçabense) e tentou o vestibular para Direito. “Não passei e desisti. Faltou alguém pra me orientar. Talvez tivesse chegado mais longe”. Segundo ele, a intenção não era exercer a advocacia, mas prestar concursos. 

Ao longo da entrevista, Baiano lembrou que chegou a ser rotulado de zagueiro violento, e isso lhe incomodava. “É chato você ser taxado por uma coisa que não fez. Tá certo que não era um anjo, mas não era esse diabo que pintaram. Ficava chateado, pois era pejorativo. Me consideravam pelo rótulo e não enxergavam minhas qualidades”, disse ao esclarecer como se livrou disso. “Com o tempo as pessoas perceberam que não era verdade. Sempre fui titular, o violento dificilmente joga, pois corre o risco de levar cartão. Podem verificar na Federação Catarinense se tem alguma expulsão minha. Não vão achar”.

Baiano chegou a ser convidado para treinar o Joaçaba, mas não aceitou. “Substitui algumas vezes o técnico, mas eu não tinha muita vontade. Se fosse hoje, certamente iria a um clube grande fazer estágio, obter uma preparação maior. Levaria mais a sério, tentaria conhecer mais o futebol”.

Outro momento importante que faz o ex-jogador ter apreço pela cidade foi o problema de saúde enfrentado em 2009. Após chegar de Porto Alegre onde assistiu Brasil e Peru com amigos começou a se sentir mal. “Dei sorte da mulher e o filho estarem em casa e me levarem ao hospital, minha pressão chegou a 22 por 12”, disse. Descobriu que era hipertenso, ficando 08 dias internado. “Com a ajuda dos amigos e com medicamentos controlados consegui passar por isso. Mais de 150 amigos foram me visitar. Aí que eu me refiro do agradecimento que eu tenho pelas pessoas de Joaçaba”, enfatizou Baiano que ao conceder essa entrevista reviveu passagens de sua vida, chegando a se emocionar por alguns instantes com as lembranças. 
 

“Minha relação com Joaçaba é muito boa e bonita. Não sei dizer se gosto mais da cidade ou das pessoas"



Agora um Pingue-pongue para conhecer o que pensa o ex- jogador do Joaçaba

Caco da Rosa – Quando iniciamos em uma carreira sempre temos uma referência. Qual foi sua?
Baiano - Minha referência foi o Brito, zagueiro da seleção brasileira de 70. Foi campeão do mundo. A gente tem que se espelhar sempre em algo grande e pra mim ele foi grande. O Pelé também é referência, aliás, ele é para todo mundo. As pessoas se referem a alguém bom, como Pelé: o Pelé da economia, o Pelé da música... Porque? O Pelé foi único, nunca vai surgir ninguém igual a ele. Veja o Neymar, é destro, o Pelé destro e canhoto. Ele fazia vários gols de cabeça e o Messi não faz. Fazia gol de falta, de bicicleta, de penalt... Por isso ele é o Pelé.

CR – Quando chegou ao JEC era um jogador maduro?
B - Sim, não tinha mais medo de jogar. Quando você é novo e consegue dominar a bola, fica louco pra soltar. Quando o jogador é diferenciado como é o caso do Neymar, um piá de 20 anos domina a bola sem medo. Não tive os mesmos recursos que ele. Ele teve uma base, foi criado dentro do Santos onde o pessoal percebeu seu potencial e o abraçou. Você não vê ele ser expulso. É bem orientado. Talvez isso tenha faltado pra mim e para um monte de jogadores. 

CR – Você acha que o Neymar ainda pode se deslumbrar com a fama e deixar a habilidade em segundo plano? 
B - Se fosse acontecer, já teria acontecido quando ele foi campeão brasileiro e campeão da libertadores, agora não. Hoje ele compra o que quiser e o sucesso é permanente. A preocupação dele era dar melhores condições para a família e ter o melhor. 

CR – O que o futebol lhe proporcionou?
B - Disputei um campeonato mineiro e joguei contra grandes jogares do futebol brasileiro, como o Piazza (campeão mundial de 70 e que jogava no Cruzeiro), o Dario (Dadá Maravilha, quinto maior artilheiro do futebol brasileiro), Toninho Cerezo (seleção brasileira e atual técnico de futebol), e o Marcelo Oliveira (hoje treinador do Cruzeiro). Não sabia se olhava para o gramado que era um tapete, para a torcida, ou se olhava para o elenco de estrelas que só tinha visto pela televisão. Estava eu lá dentro do Mineirão onde jogaram as grandes seleções do mundo. Não tava nem um pouco preocupado em vencer (brinca). E tive a oportunidade de jogar contra o meu Vascão.

CR – Você chegou a fazer dinheiro com o futebol?
B – Não. No meu tempo as coisas não eram assim. Tudo era mais difícil. Tenho minha casa do lado da família da mulher. Consegui minhas coisas com o tempo. Cheguei a morar com a sogra e pagar aluguel.

CR – Momento inesquecível no futebol?
B - Quando fui jogar contra o Cruzeiro como citei anteriormente tive a oportunidade de encontrar o Piazza (seleção brasileira 70 e 74), ele me deu a mão e me disse “capriche que você pode chegar num time grande”. Eu tinha 18 anos e não levei aquilo a sério, mas ele estava falando sério. Era um campeão do mundo, um líder que comandou Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivelino, Gerson, Brito... Sujeito culto. Ele me passou uma mensagem, eu que não captei.

CR – O futebol é um esporte fácil?
B - Futebol é um esporte inteligente. Não é só colocar meia e chuteira, tem que estudar o adversário, ter várias qualidades como bom preparo físico, impulsão, noção de distância, antecipação, uma série de coisas que às vezes não se discute na mídia por achar que as pessoas não vão entender. Falar do futebol é fácil, agora falar como ele é jogado, aí é que as pessoas não sabem. Se um torcedor pergunta por que não conseguem parar o Messi (Barcelona)? Por que o sistema de jogo que é montado pra marcar o Messi é um sistema errado. Ele pega a bola no meio do campo e vem, então porque você vai lá disputar a bola com ele que vai ter que passar por você? Mas como disse, falar é fácil, tem que ver isso em prática. O treinador tem que saber disso. Tem que estudar o que fazer, colocar no papel e passar para os atletas no treinamento. 

CR - Futebol era melhor antes, ou é melhor agora?
B - Antes era mais técnico e hoje mais corrido. Substituíram a técnica pela velocidade. Uma coisa é ver e outra é ter visão. Ter visão é olhar e trabalhar a mente. O sistema econômico obrigou o futebol a virar essa correria. A Rede Globo e a BMG (exemplos) pagam e querem resultado. A mídia ganha muito mais que os clubes. 

CR - Hoje o futebol é um comércio. Isso é bom ou ruim?
B - É ruim, mas tudo é consequência. Ruim em termos técnicos, mas bom financeiramente. Se hoje eu fosse um jogador não precisaria ir para o Santos, Corinthians, ou Palmeiras para ganhar dinheiro. O Zé Carlos do Criciúma ganhava R$ 60 mil, o Figueirense paga de R$ 30 a 40 mil. Em 10 anos que é o tempo de carreira de um jogador, se levar as coisas controladas você pode tocar a vida depois com tranquidade. 

CR - Os supersalários não atrapalham, não ferem o ego de jogares que não recebem isso?
B - Não. Tem que ver a competência de cada um. Quem dos Santos vai brigar pelo salário do Neymar, ou quem vai reclamar o salário do Messi? Acho justo, cada um com o seu potencial e o que pode ganhar com ele.

CR – Voltando ao Joaçaba. Quando o time deu certo?
B - Quando um grupo se organizou e conseguiu recursos. Em 1992 Lademir Colombo, na época Diretor de Futebol, contratou os caras certos para os lugares certos. Montou o time e colocou na mão do técnico Ronaldo Becker, quando fui preparador físico. Foi campeão da segunda divisão. Em 95 também fez uma boa campanha comandado pelo técnico Calixto, embora não tenha conseguido o título.

CR - O Joaçaba ainda pode dar certo?
B- Olha, o pessoal que dirigiu Joaçaba naquele período se cansou. Todos eram pessoas inteligentes e bem relacionadas, mas tinham atividades profissionais fora do futebol, por isso a coisa desgastou. Tem o Coelho (Luiz Carlos), engenheiro agrônomo, um cara de cultura que é um apaixonado pelo futebol. A turma malha, mas acho ele excelente. É preciso um trabalho de mídia para conseguir recursos, e um trabalho sério de prestação de contas e resultados no campo. Na nossa época foi assim.

CR - A sociedade tem interesse em ter um time de futebol novamente?
B - Tem, mas ninguém quer o compromisso. Se tiver jogo o povo vai, ainda mais se tiver um bom time. Tem que ter pessoas comprometidas para fazer um bom trabalho, mas quem vai fazer? 

CR – Pra finalizar, você aceitaria treinar o Joaçaba? 
B - Não tem possibilidade, tenho 64 anos. Se eu fosse um cara novo, com boa saúde, até me colocaria a disposição. Nem a presidência encararia, pois é desgaste demais, muito cansativo. Você ta em casa e o jogador te liga dizendo que precisa de dinheiro, ou que a família tá doente. Você tem que dar assistência total, o negócio não é simples. 


Fotos: Acervo pessoal

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